A
arte de bordar está estreitamente ligada à mais antiga e tradicional atividade
artesanal dos Açores – a tecelagem em linho.
Os inventários de bens da fidalguia provam a existência de indústrias
caseiras ligadas à tecelagem e aos bordados já nos séculos XV e XVI. Os registos camarários dessa época, por sua
vez, referem as restrições à comercialização do algodão e do linho, este último
cultivado nestas ilhas, levando-nos a crer que a produção seria insuficiente
para o consumo que ali se fazia dessas fibras.
Com elas se confecionava o vestuário, as roupas brancas de casa e ainda
determinadas alfaias quer para a
pesca quer para a
agricultura.
A
tradição de bordar remonta, pois, aos primórdios do povoamento do Arquipélago
e, tal como tantos outros aspetos da vida nos Açores, foi condicionada pela
influência colonizadora do povo português que para aqui transportou os seus
usos e costumes, com o auxílio de outros povos como é o caso dos
flamengos. Outras influências se
cruzaram nos portos açorianos, principalmente em Angra do Heroísmo e Ponta
Delgada, provenientes da Índia nos séculos XV e XVI, da Inglaterra nos séculos
XVII e XVIII, do Brasil e da América do Norte no século XIX, quer pela via das
relações comerciais,
quer pela crescente
emigração.
A
Portaria n.º 89/98, de 3 de dezembro, que criou a marca coletiva “Artesanato dos Açores” acolheu, em primeiro lugar, os
bordados nas suas variantes - “Bordado de São Miguel”, “Bordado da Terceira” e
“Bordado a Palha de Trigo” da Ilha do Faial. Atualmente, a marca “Artesanato dos
Açores” está regulamentada pela Portaria n.º 111/2021 e abrange um total de 25
produções artesanais das mais diversas áreas.
Bordado da Terceira
O
designado bordado da Terceira terá emergido do
contexto neoclássico do século XIX que elegeu os tecidos leves de tons claros,
bem como a elegância
feminina na ornamentação.
Essa
influência estética está associada às estreitas ligações comerciais que
frequentemente traziam empresários
ingleses às ilhas da Madeira e dos Açores.
Atualmente,
uma boa parte do nosso património perpetua a presença inglesa no Arquipélago: a
genealogia, a literatura, a arquitetura, e até a própria paisagem através dos
jardins botânicos. Inevitavelmente, as
artes decorativas refletem a mentalidade neoclássica e reproduzem os novos
cânones da burguesia inglesa: a simplicidade e a pureza consumadas no branco
dos tecidos e a racionalidade clássica sublimada pela organização decorativa em
linhas retas. O bordado adquire uma
organização geométrica, predominantemente
circunscrito em barras.
Este
breve quadro histórico permitirá perceber melhor o enraizamento do Bordado a
Branco na ilha Terceira e ilhas adjacentes como a Graciosa, a sua adaptação à
realidade local e a consequente tipificação através da promoção de um tipo de
bordado ao qual, sem descurar o cruzamento de influências de mercado numa dada
época, as empresas e as bordadeiras
locais, imprimiram valor genuíno.
Tecnicamente,
o ponto cheio, o ponto aberto preenchido com crivos artísticos, o richelieu e
os ilhós em linha de algodão branca sobre tecido de linho e/ou algodão
igualmente branco, são os que melhor caracterizam o atualmente denominado
Bordado da Terceira.
Os
motivos decorativos, de um modo geral pertencentes à gramática da arte popular
terceirense – corações, laços, flores e ramos estilizados em grinaldas ou
isoladamente, e a predominância de uma determinada técnica ou ponto de bordado,
são reveladores de uma série de circunstâncias que identificam o Bordado da
Terceira: numa versão erudita, mais antiga e aristocrática, em que predomina o
bordado a cheio em sofisticados quadros ou molduras de monogramas; uma versão
popular, colorida e de temática local em que predomina igualmente o ponto
cheio; o frágil richelieu de finas brides e de temática essencialmente
vegetalista, mais atual e revelador de uma inegável influência madeirense; o
ilhós, mais próximo do bordado inglês, conjugado em diversas e delicadas composições
geométricas, das quais resultam, por exemplo, as interessantes cavacas e
viúvas. É nestas duas últimas versões
que o Bordado da
Terceira se apresenta hoje.
Texto da autoria de Alexandra Andrade, coordenadora do CADA - Centro de
Artesanato e Design dos Açores