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Bordados dos Açores

Práticas
Bordado a Branco. Associação dos Artesãos da Ilha Graciosa ©DGArtes/Matéria Triangular/Paulo Pinto/2025

Bordados dos Açores

  

A arte de bordar está estreitamente ligada à mais antiga e tradicional atividade artesanal dos Açores – a tecelagem em linho.  Os inventários de bens da fidalguia provam a existência de indústrias caseiras ligadas à tecelagem e aos bordados já nos séculos XV e XVI.  Os registos camarários dessa época, por sua vez, referem as restrições à comercialização do algodão e do linho, este último cultivado nestas ilhas, levando-nos a crer que a produção seria insuficiente para o consumo que ali se fazia dessas fibras.  Com elas se confecionava o vestuário, as roupas brancas de casa e ainda determinadas alfaias quer para a pesca quer para a agricultura.

A tradição de bordar remonta, pois, aos primórdios do povoamento do Arquipélago e, tal como tantos outros aspetos da vida nos Açores, foi condicionada pela influência colonizadora do povo português que para aqui transportou os seus usos e costumes, com o auxílio de outros povos como é o caso dos flamengos.  Outras influências se cruzaram nos portos açorianos, principalmente em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada, provenientes da Índia nos séculos XV e XVI, da Inglaterra nos séculos XVII e XVIII, do Brasil e da América do Norte no século XIX, quer pela via das relações comerciais, quer pela crescente emigração.

A Portaria Nº89/98, de 3 de dezembro, que criou a marca coletiva “Artesanato dos Açores” acolheu, em primeiro lugar, os bordados nas suas variantes - “Bordado de São Miguel”, “Bordado da Terceira” e “Bordado a Palha de Trigo” da Ilha do Faial. Atualmente, a marca “Artesanato dos Açores” está regulamentada pela Portaria n.º 111/2021 e abrange um total de 25 produções artesanais das mais diversas áreas.

     

Bordado a Palha do Faial

O primeiro exemplar de que há registo, tal como é relatado no Arquivo dos Açores, remonta ao ano de 1850 e terá sido um chapéu de senhora de seda preta, bordado a palha e originário de França que, a partir de Boston, foi enviado a uma senhora residente na Horta pela sua irmã emigrada naquela cidade da Nova Inglaterra como tantos outros conterrâneos seus.

Supostamente, o objetivo seria analisar a possibilidade de incrementar a produção de trabalhos deste género na Ilha.  O interesse suscitado por esta original técnica e a larga utilização das fibras vegetais na produção de diversos artefactos no Arquipélago, impulsionou uma indústria caseira que tinha já um mercado à sua espera na América do Norte e na Inglaterra.

Os véus e as mantilhas, os chapéus e os vestidos de baile eram as peças mais apreciadas pelo efeito fluído do tule de algodão, onde reluzia a dourada palha, desenhando delicados motivos vegetalistas.  É sobretudo na ténue luz das igrejas e dos salões de baile que estas peças exibem todo o seu esplendor.

A matéria-prima é preparada pela própria bordadeira que sabe como obter a cor e a textura da palha de trigo ou de centeio: o rachar, o amassar da palha e, finalmente, a ornamentação do tule já alinhavado à tela riscada, são tarefas que lhe cabem por inteiro, às quais dedica toda a perfeição técnica de que é capaz.

O elemento decorativo predominante neste tipo de bordado é a espiga de trigo, embora outros elementos vegetalistas e até figurativos façam parte dos desenhos escolhidos pelas bordadeiras faialenses. Com o fio vegetal, vão entrelaçando pequenos nós numa composição de base geométrica previamente riscada.

    

Bordado de São Miguel

A delicadeza e a frescura de pequenos ramos e flores como as cravinas, as silvas, avencas e outras flores campestres, caracteriza a iconografia do bordado a matiz de São Miguel.  Com fio de algodão em dois tons de azul sobre linho, recria motivos que têm sido associados às porcelanas orientais trazidas a estas paragens pela Carreira da Índia, sobretudo quando integram aves na composição vegetalista numa versão mais erudita.   

Da iniciativa privada do maior grupo empresarial dos Açores de então, pertencente à família Bensaúde, terá resultado na década de 30 do século XX, uma indústria artesanal vocacionada para a exportação, cujo processo de implementação nunca poderá ser dissociado da indústria de faiança pintada.

As peças mais antigas eram bordadas em filosel de seda ou de algodão, numa conjugação infinita de cores vivas.  Esta recatada arte feminina terá atingido uma dimensão comercial pela dinamização da produção local, em plena recessão económica.  Fruto dessa preocupação comum e de um trabalho conjunto ao qual não foi alheio o etnógrafo micaelense, Luís Bernardo Leite de Ataíde, surge um tipo de bordado que se apresenta em Paris, em 1947, na Exposição do Mundo, como sendo típico de São Miguel.

Caracteriza-o, para além do ponto matizado e dos motivos empregues, a organização destes em linhas sinuosas e paralelas que se repetem e, ainda, a invulgar baínha em recorte invertido, isto é, em pequenas curvas viradas para o interior, feitas sobre tecido dobrado para o avesso.

         

Bordado da Terceira

O designado bordado da Terceira terá emergido do contexto neoclássico do século XIX que elegeu os tecidos leves de tons claros, bem como a elegância feminina na ornamentação.

Essa influência estética está associada às estreitas ligações comerciais que frequentemente traziam empresários ingleses às ilhas da Madeira e dos Açores.

Atualmente, uma boa parte do nosso património perpetua a presença inglesa no Arquipélago: a genealogia, a literatura, a arquitetura, e até a própria paisagem através dos jardins botânicos.  Inevitavelmente, as artes decorativas refletem a mentalidade neoclássica e reproduzem os novos cânones da burguesia inglesa: a simplicidade e a pureza consumadas no branco dos tecidos e a racionalidade clássica sublimada pela organização decorativa em linhas retas.  O bordado adquire uma organização geométrica, predominantemente circunscrito em barras.

Este breve quadro histórico permitirá perceber melhor o enraizamento do Bordado a Branco na ilha Terceira e ilhas adjacentes como a Graciosa, a sua adaptação à realidade local e a consequente tipificação através da promoção de um tipo de bordado ao qual, sem descurar o cruzamento de influências de mercado numa dada época, as empresas e as bordadeiras locais, imprimiram valor genuíno.

Tecnicamente, o ponto cheio, o ponto aberto preenchido com crivos artísticos, o richelieu e os ilhós em linha de algodão branca sobre tecido de linho e/ou algodão igualmente branco, são os que melhor caracterizam o atualmente denominado Bordado da Terceira.

Os motivos decorativos, de um modo geral pertencentes à gramática da arte popular terceirense – corações, laços, flores e ramos estilizados em grinaldas ou isoladamente, e a predominância de uma determinada técnica ou ponto de bordado, são reveladores de uma série de circunstâncias que identificam o Bordado da Terceira: numa versão erudita, mais antiga e aristocrática, em que predomina o bordado a cheio em sofisticados quadros ou molduras de monogramas; uma versão popular, colorida e de temática local em que predomina igualmente o ponto cheio; o frágil richelieu de finas brides e de temática essencialmente vegetalista, mais atual e revelador de uma inegável influência madeirense; o ilhós, mais próximo do bordado inglês, conjugado em diversas e delicadas composições geométricas, das quais resultam, por exemplo, as interessantes cavacas e viúvas.  É nestas duas últimas versões que o Bordado da Terceira se apresenta hoje.

   

    

Texto da autoria de Alexandra Andrade, coordenadora do CADA - Centro de Artesanato e Design dos Açores

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pontos de interesse

Açorbordados de J.H.Toste, Lda

Artesão
Comércio

Angra do Heroísmo, Terceira, Açores

295 214 239

acorbordados@sapo.pt

Museu da Horta

Museu

Largo Duque de Ávila e Bolama, 3

Horta, Faial, Açores

292202581

museu.horta.info@azores.gov.pt

http://www.museu-horta.azores.gov.pt/

João Pereira & Filhos, Lda

Comércio
Artesão

Av. Tenente Coronel José Agostinho, 31 - 1º

Fanal, São Pedro

São Miguel, Açores

965 773 455 / 295 216 048

bordadoacores@mail.telepac.pt

www.bordadodosacores.com

Centro de Apoio ao Artesanato de São Jorge

Comércio
Oficina

Rua Poetisa Belmira de Andrade

Velas, São Jorge, Açores

295 432 364

centro.artesanato@adisj.pt

https://cmvelas.pt/visite-o-centro-de-apoio-ao-artesanato/

Museu Carlos Machado

Museu

Rua Dr. Guilherme Poças, 65

Ponta Delgada, São Miguel, Açores

296 202 930/931

museu.cmachado.info@azores.gov.pt

https://museucarlosmachado.azores.gov.pt

Cooperativa de Artesanato e Solidariedade Social Senhora da Paz

Artesão
Comércio

Rua Conego Sena Freitas, 16

Vila Franca do Campo, São Miguel, Açores

296 583 911

cooperativadeartesanatosra.dapaz@hotmail.com

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