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Guimarães
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mapa de Bordado de Guimarães
O Bordado de Guimarães é um produto artesanal único, com uma imagem forte e singular facilmente identificável no conjunto dos Bordados portugueses. Trata-se, no essencial, de um bordado monocromático cujos pontos relevados constroem motivos quase exclusivamente vegetalistas, estilizados ou geometrizados.
O que atualmente conhecemos como Bordado de Guimarães descende do chamado «bordado rico», que se terá desenvolvido em meados do século XVI, a par de um renovado fulgir das artes na Europa do Renascimento. Foi também beber influência ao «bordado popular», nomeadamente nas cores fortes usadas no vestuário pela maioria dos habitantes da região «Antre Douro e Minho».
Por esta época, começa a democratizar-se o uso de bordado como adorno do vestuário, o que levou a um crescimento das oficinas especializadas e o papel profissional da mulher nesta atividade começou a ganhar visibilidade. A arte de bordar foi sempre praticada pelas mulheres, mas somente nos seus lavores para uso doméstico, pois o trabalho especializado estava destinado às oficinas, que trabalhavam para as casas de altos dignatários do clero e da nobreza, e que, funcionando em regime de corporativismo, eram compostas maioritariamente por membros do sexo masculino.
A partir do século XVI, com uma maior dinâmica criativa e técnica, bem como a aplicação crescente do bordado em diversas tipologias têxteis, o trabalho do bordado feminino é estimulado a sair “fora de portas”. Este saber-fazer, imemorial e geracional, começa a ser notado pelas classes mais abastadas e nobres. É na Europa renascentista que o bordado adquire uma grande dimensão de variantes técnicas. Isto é devido, em parte, ao facto de se passar a combinar os motivos do bordado geométrico e os motivos de figurado estilizado vindos do oriente, dado ao incremento do comércio no Mediterrâneo, sobretudo por via genovesa e veneziana.
O apuramento da técnica de execução de pontos e da composição do desenho, que hoje apreciamos no Bordado de Guimarães, foi o resultado do trabalho desenvolvido ao longo de séculos; marcado, ainda, pelo gosto de cada época.
Como, infelizmente, não chegaram até nós exemplares mais antigos do que os do século XIX, foi convencionado situar o começo da estabilização das características tipológicas do bordado de Guimarães apenas após este período.
Em oitocentos, o trabalho de bordar em linho ocupava grande parte da população feminina de Guimarães, sendo encomendado pelos comerciantes de têxteis da região. Era comum «trabalhar para fora», quer fosse para as casas mais abastadas, associando os trabalhos de costuras ao de bordar, quer concretizando artigos Bordado para as lojas de comércio da cidade.
São maioritariamente trabalhos com bordado a branco, o designado «bordado rico», complexo na sua paleta de pontos, que adquire grande esplendor nos diversos apontamentos em relevo, usando-se, para tal, o ponto cheio e o ponto de veludo.
Todavia, à época, não se executava somente este tipo de trabalho; outro se fazia para decorar o vestuário: o chamado «bordado popular» – um tipo de bordado que usava a cor, motivos inspirados na natureza de cariz vegetalista e desenhos geometrizados. Os coletes de rabos, que ainda hoje se produzem para uso dos grupos folclóricos, são belos exemplares da criatividade na arte de bordar das mulheres de Guimarães de finais do século XIX.
O desenho é uma das características mais marcantes do Bordado de Guimarães e as suas composições definem-se pela harmonia na disposição dos motivos.
Em 1958, com o Curso de Formação Feminina, promovido pela Escola Industrial e Comercial de Guimarães, atual Escola Francisco de Holanda, institucionalizou-se o ensino da arte de bordar.
O ensino do desenho introduzido, naquela data, nos cursos da Escola Industrial veio marcar de forma indelével o percurso do Bordado de Guimarães e contribuir sobremaneira para uma mais apurada qualidade estética das peças. Os esboços que nos surgem deste período caracterizam-se por uma maior complexidade na disposição das formas. São inúmeras as variantes de desenhos de flores criadas, nascendo um conjunto invulgar de festões que nos aparecem como centro de composições vegetalistas ou organizados dentro de cestos estilizados.
Considera-se que é a partir de meados do século XX que se começa a definir o Bordado de Guimarães, que hoje se caracteriza pela escolha de composições geralmente simétricas; reproduzindo um vasto conjunto de motivos vegetalistas e geometrizados como, por exemplo, folhas, flores, grinaldas, corações, silvas; bordados com uma de seis cores: vermelho, azul, bege, cinza, branco e preto; utilizando vinte e um pontos tradicionais, entre os quais se destacam o ponto de canutilho e o ponto de gradinha. Os suportes utilizados incluem linho artesanal ou industrial, nomeadamente “linho 20”, podendo também ser utilizados algodão, seda, voile e outros tecidos adequados, desde que não comprometam a qualidade do bordado. O fio utilizado é fio de algodão mercerizado Perlé 8, podendo ser utilizados outros fios adequados a trabalhos mais minuciosos.
Segundo o Caderno de Especificações do Bordado de Guimarães, as condições de inovação no produto e no modo de produção são bastante claras, abrindo-se essa possibilidade, há que garantir a preservação da identidade do Bordado de Guimarães. No que diz respeito à criação de novas composições, elas são possíveis desde que os motivos sejam de natureza vegetalista, floral ou geométrica e sejam bordados numa das seis cores tradicionais. A etiquetagem da peça distingue se se trata de um bordado de Guimarães tradicional ou clássico ou se é de abordagem contemporânea (com introdução de inovação em algum dos seus aspetos).
A Oficina, CIPRL, entidade promotora de certificação do Bordado de Guimarães, apresentou ao INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial, em 03 de abril de 2006, o pedido de Registo da Indicação Geográfica “Bordado de Guimarães”, pedido esse que foi publicado no Boletim da Propriedade Industrial em maio de 2006.
Esse documento esteve na base da concessão do registo da IG – Indicação Geográfica nº 148 “Bordado de Guimarães” e tem servido de instrumento regulador para implementação do processo de certificação pelo Organismo de Certificação.
Mais recentemente, A Oficina procedeu à inscrição da Indicação Geográfica “Bordado de Guimarães” no Registo da União das Indicações Geográficas de produtos artesanais e industriais, ao abrigo do Regulamento (UE) 2023/2411 (CIGIR), emitido pelo EUIPO em 14/08/2026. Nos termos da decisão, a denominação “Bordado de Guimarães” beneficia de proteção ao abrigo do CIGIR desde 17/12/2025.
A Certificação do Bordado de Guimarães veio impulsionar a valorização dos produtos e por conseguinte aumentar o reconhecimento, por parte dos consumidores, das especificidades que o Bordado de Guimarães encerra, enquanto valia do património cultural imaterial da sua comunidade. Com este trabalho, contribuiu-se também para o conhecimento deste mesmo legado através do registo exaustivo da sua prática no passado, no presente e preparando assim o seu futuro, que queremos auspicioso.
O Bordado de Guimarães resulta de um percurso histórico longo e foi-se configurando através da transmissão de conhecimento entre gerações. A riqueza deste bordado reside, principalmente, na forma como as pessoas que o executam foram conseguindo acumular saber e, simultaneamente, inovar formalmente e tecnicamente, respigando conteúdos do passado e adaptando-os a cada novo tempo.
Texto da autoria de A Oficina - Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães (2026).
Referências Bibliográficas:
A Oficina - Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães, Ciprl
Guimarães
https://www.aoficina.pt/