Rua das Murças, 15
Funchal, Madeira
291 225 992
https://linoandaraujo.com/
mapa de Bordado da Madeira
Ponto após ponto, a bordadeira dá vida ao bordado da Madeira. Segue um desenho feito a anil, marcado no pano segundo a técnica de estampagem, a partir da chapa picotada. O valor do seu trabalho é medido por um curvímetro que conta os diferentes pontos que irá fazer. Das suas mãos pacientes e do gesto meticuloso sai a minúcia dos motivos “inscritos” a linha de seda ou de algodão sobre um tecido que começou por ser de linho cultivado, processado e tecido na ilha, mas que hoje é proveniente de países europeus e contempla, ainda, o algodão, a seda ou o terylene.
As origens do bordado da Madeira e as referências à prática de bordar na ilha são escassas até ao século XIX. Os estudos existentes, no entanto, referem que a produção se terá iniciado com a ocupação destes territórios insulares, no século XV. Sendo uma atividade tradicionalmente feminina, executada em ambiente doméstico, terá sido trazida pelos primeiros colonos. A ancestralidade desta prática encontra eco no relato do padre Gaspar Frutuoso sobre a Ilha que, em 1572, dignificava as mulheres madeirenses como exímias “(…) em todas as invenções de ricas cousas que fazem, não tão somente em pano com polidos lavores” (FRUTUOSO, 1873: 200).
Executado em contexto familiar, o bordado está diretamente associado aos lavores femininos realizados em complemento de outras tarefas e como uma componente da economia doméstica. Saber bordar fazia parte das designadas “prendas femininas”, transmitidas desde a infância e aplicadas na preparação do enxoval. A música popular madeirense preserva essa memória em cantigas como:
“Ai borda rica filha, borda, borda! / Ai borda rica filha, borda bem (…)”[1].
A presença de conventos femininos na Madeira reforçou igualmente a difusão e o ensino da arte de bordar, sobretudo entre a sociedade burguesa e a aristocracia local. O destaque é dado aos Conventos franciscanos de Santa Clara (século XV), da Encarnação (Século XVI) e das Mercês (Século XVII]) localizados no Funchal. As propriedades que detinham em vários lugares da ilha proporcionava o cultivo do linho, necessário para o fabrico de indumentárias religiosas, de alfaias litúrgicas e de outros objetos têxteis do quotidiano.
Os períodos do Bordado Madeira: as influências externas e a indústria das Casas de Bordado
O Bordado Madeira ganhou visibilidade e projeção internacional a partir da Exposição das Indústrias Madeirenses, em 1850, desencadeando o aumento da procura e, sequentemente, a introdução de novidade ao gosto dos encomendantes. Dá-se início ao designado período inglês, que se prolonga até à década de 1880, destacando-se o bordado a branco sobre tecidos importados.
Nos finais do século XIX, a comunidade germânica revela, de igual modo, interesse pelo bordado, iniciando-se o período alemão, que vigora até 1916, a fase em que a Madeira é conhecida internacionalmente como “centro produtor de bordado”. Assiste-se à modernização técnica da marcação de desenhos por picotagem, o que torna o processo mais rápido e permite multiplicar a sua utilização, rentabilizando as chapas e o tempo de trabalho. Aos alemães é, ainda, atribuída a introdução de motivos a linha em cor castanha sobre tecido de linho bege, bem como a valorização do ponto a sombreado.
A terceira vaga do Bordado Madeira denomina-se por Período sírio ou americano e estende-se entre 1916 e 1925. Os sírios e os judeus alargam o bordado a novos mercados, em particular aos Estados Unidos da América. Assiste-se a uma tendência pelo bordado policromado e à introdução de tecidos provenientes da Suíça, Irlanda e Escócia (GARRIDO, 2015).
A partir de 1925 entra-se num quarto período, designado por Regional, em que as casas de bordado de origem local assumem maior protagonismo (KLUT, 2003), diversificando os materiais e reforçando a organização da produção.
A dinâmica incutida pelos investidores estrangeiros produz alterações no processo de bordar estruturado a partir das casas de bordado. A multiplicidade de desenhos constitui hoje um verdadeiro arquivo do tempo e do saber fazer que se mantém vivo e atualiza, enquanto evidência do gosto e as tendências da sociedade a cada momento.
A valorização do bordado e o trabalho das bordadeiras
A difusão das Casas de Bordados, nos finais do século XIX, em paralelo com a inovação técnica registada, introduzem mutações no processo de trabalho. Transformam as bordadeiras em executantes pagas de acordo com os pontos feitos, aferidos pelo curvímetro, ou seja, a complexidade do bordado define o rendimento que dele se retira, enquanto a idealização dos motivos pertence a outros intervenientes na cadeia de produção. O bordado sai da esfera doméstica e privada e entra no domínio industrial, ainda que feito manualmente e que muitas das bordadeiras continuem a trabalhar em sua casa, a tempo parcial ou total, constituindo uma rede produtiva dispersa pela ilha.
A partir da década de 1920 aumentam os desafios colocados pela concorrência internacional e pela difusão do bordado mecanizado. A indústria do bordado madeirense ajusta-se e desenvolve mecanismos de defesa e de valorização da produção e, em 1935, é fundado o Grémio dos Industriais de Bordados da Madeira. Entre outras medidas impõe a criação de um selo de garantia para as peças produzidas.
Em 1937 surge o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria dos Bordados da Madeira. Todavia, apenas contemplava quem desempenhava funções na indústria e nas casas de bordados (SILVA, 2015), o que excluía as bordadeiras de casa. O acesso destas ao sindicado decorre, apenas, em 1976, data em que se passa a designar Sindicato Livre da Indústria de Bordados da Madeira.
Em 1977, em substituição do Grémio, é criado o Instituto do Bordado, Tapeçarias e Artesanato da Madeira (IBTAM), cuja atividade foi relevante na criação da Marca Coletiva de Proveniência dos Bordados da Região Autónoma da Madeira (1990) e na definição das Normas de Qualidade do Bordado da Madeira (1991). Está na génese do atual Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM, IP-RAM), que tem como missão promover, divulgar e preservar o bordado e o artesanato madeirenses.
O bordado da Madeira foi o primeiro têxtil português a obter certificação e selo de origem. Continua hoje a afirmar-se como elemento identitário e fonte de inspiração para criadores e designers contemporâneos.
A viagem do bordado Madeira: do saber-fazer que chega ao saber-fazer que se dissemina
A natureza insular e a posição geoestratégica do Arquipélago da Madeira levam a que seja um ponto de chegada, mas também, um ponto de partida para outros espaços. Um entreposto de migrações. Se o bordado chegou com os colonos, no século XV, e foi influenciado pela intervenção estrangeira, a partir da segunda metade do século XIX, por outro lado, a migração de comunidades madeirenses para outros territórios, que se mantém no século XX, dá continuidade à transmissão do saber-fazer e à sua disseminação. Exemplo disso, a grande procura da indústria da confeção paulista pelas bordadeiras vinda da Madeira e consequente divulgação do bordado madeirense. Reconhecidas pela qualidade e delicadeza das suas peças, encontravam trabalho poucos dias após chegarem ao Brasil e influenciaram a própria produção local (SILVA, 2022).
Do desenho ao bordado: O processo de bordar
Os motivos do bordado foram alterando de acordo com as influências recebidas. De criações simples, de inspiração floral que terão marcado os exemplares de uma fase inicial, evolui-se para desenhos mais complexos, reflexo de gostos e de tendências. Para esta realidade contribui o tipo de ponto aplicado.
Os desenhos originais são definidos em função da dimensão da peça a criar e do número de pontos a utilizar, seguindo diretrizes do encomendante e do industrial. O seu desenvolvimento exige o conhecimento das características mecânicas do tecido de suporte, do comportamento dos diferentes pontos bordados e dos efeitos da lavagem final. Cada desenho inclui informação técnica relativa aos pontos, quais e em que quantidade, as cores, costuras e linhas a aplicar, o que permite avaliar a complexidade da sua execução e o valor do trabalho da bordadeira.
Segue-se a fase da picotagem do desenho através da qual são produzidas as chapas destinadas à reprodução do motivo. As chapas são posteriormente utilizadas na estampagem dos tecidos, no geral, utilizando uma pasta constituída por um pigmento em pó, um aglutinante e um solvente. Uma vez que o bordado é, em grande parte, executado a cor branco ou bege, utiliza-se uma pasta à base de parafina, anil e petróleo. Hoje, no entanto, procuram-se processos alternativos com recurso a técnicas e materiais mais sustentáveis (GOMES, 2010). Em tecidos coloridos é possível fazer a estampagem a branco, com recurso ao alvaiade, ou pontualmente a preto, utilizando carvão vegetal.
Os tecidos estampados são entregues aos agentes que os distribuem pelas bordadeiras de casa e recolhem os bordados finalizados. Atualmente, uma bordadeira profissional trabalha, pelo menos, 5 horas por dia. De acordo com as Normas de Qualidade do Bordado da Madeira, os pontos permitidos num bordado da Madeira são organizados em três tipologias:
1| Pontos arrendados - Ana, Crivo, Escada.
2 | Pontos lançados por urdidura - Cordão, Bastido, Caseado, Ilhó, Cavaca, Oficial, Richelieu.
3 | Outros pontos - Pesponto, Francês, Sombra, Corda, Granito [ou Garanito] e Matiz.
Depois de prontas, as peças regressam à Casa de Bordado para serem lavadas e retirar as marcações do desenho, para recorte e pequenos arranjos e para serem engomadas. Após verificação, são-lhe atribuídos os selos de garantia pelo IVBAM estando preparadas para entrar no circuito comercial.
O bordado da Madeira é resultado de uma conjugação entre uma longa tradição local, a que o interesse e o gosto estrangeiro vieram somar novos elementos e introduzir uma maior dimensão na produção e na visibilidade, abrindo caminho para modelos de negócio empresariais: as casas de bordado. Não obstante, a criação do bordado da Madeira continua a obedecer a processos ancestrais e a estar nas mãos dos desenhadores e, em especial, das bordadeiras, não só porque os executam, mas porque a transmissão do saber-fazer do “bordar” depende de si, o que lhe confere uma riqueza simbólica e singularidade. Este é o cerne do Bordado da Madeira como arte tradicional e como património cultural imaterial.
[1] "Cantiga tradicional A primavera", in Direção Regional da Educação (2012) Memórias com história, Funchal: Secretaria Regional de Educação e Recursos Humanos, p. 32
Bibliografia
Rua das Murças, 15
Funchal, Madeira
291 225 992
https://linoandaraujo.com/
info@bailha.pt
965453332
www.bailha.pt
Bordal – Bordados da Madeira, Lda.
Rua Dr. Fernão Ornelas, 77
Funchal, Madeira
291 222 965
bordal@bordal.pt
https://www.bordal.pt/