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Junco

Material

Nome comum da planta

Junco

Nome científico da planta

Juncus spp.

Distribuição no território nacional

género com ampla distribuição

Junco ©DGARTES/Pepe Brix/2025

Com 34 espécies e subespécies, distribuídas do Minho aos Açores, da orla litoral ao interior montanhoso e às planícies alentejanas, os juncos são ubíquos no território nacional1.

O nome do género – Juncus – tem origem directa no latim e foi publicado pelo botânico sueco Carl von Linné [Lineu] (1707–1778), na obra Species Plantarum (vol. 1: 325)2, editada em Maio de 1753 e que marcou o início da nomenclatura botânica contemporânea. O latim juncus (iuncus) era atribuído não apenas a plantas do actual género Juncus L., mas também a outras espécies, agora distribuídas pelos géneros Cyperus L., Schoenus L. e Scirpus L. e está relacionado com o verbo jungo (iundo), que significa ‘unir’, ‘atar’3, aludindo ao uso dos caules destas plantas para os cordéis e baraços utilizados na faina agrícola. Este é o género-tipo para a família à qual pertence – Juncaceae.

Na língua portuguesa, o nome ‘junco’ segue a tradição latina vernacular e é utilizado com grande amplitude semântica, porque tanto pode referir-se a espécies da família Juncaceae (‘juncos verdadeiros’), como a outras plantas que, no contexto do uso agrícola e para artesanato, estão presentes nos mesmos ecossistemas, e que também apresentam caules longos e flexíveis, como, por exemplo, o bunho (Schoenoplectus lacustris L.) da família Cyperaceae – a mesma família do famoso papiro (Cyperus papyrus L.), que provém do Egipto. Esta sobreposição de nomes comuns é frequente em ‘botânica popular’ mas, do ponto de vista científico, importa sempre distinguir as espécies para melhor compreender a sua diversidade, ecologia e distintos usos que lhe são destinados.

A ecologia do género Juncus é muito variada e inclui espécies comuns em prados húmidos e margens de linhas de água (Juncus effusus L.), outras de sapais e zonas costeiras salobras (Juncus acutus L. e Juncus maritimus Lam.), além de táxones com distribuição mais restrita e elevado interesse para a conservação de espécies mais raras, como o Juncus emmanuelis A.Fern. & J.G.Garcia., cujo epíteto específico evoca o último rei de Portugal, Dom Manuel II (1889-1932), e a variedade Juncus valvatus var. valvatus Link (junco-da-estremadura), que é um endemismo português1.

Os juncos são plantas helófitas, ou seja, estão enraizadas em solos encharcados, com a parte aérea emergente. Estas plantas ajudam a estabilizar as margens, reduzem a erosão, retêm os sedimentos e, em zonas húmidas, contribuem para filtrar a água e favorecer a deposição de partículas, para além de criarem habitats para microrganismos associados às suas raízes. Os juncais, densos aglomerados de juncos, presentes em estuários, pauis e margens lagunares, são refúgios para invertebrados, anfíbios e aves4.

A toponímia portuguesa evoca antigas áreas que eram o domínio dos juncos, mas que, agora, estão ocupadas por humanos, como Juncais (Fornos de Algodres), Juncal (Porto de Mós), Juncal do Campo (Castelo Branco) ou Junqueira (Vale de Cambra). De igual forma, estas plantas estão omnipresentes nos apelidos de muitos portugueses – Juncal, Junco, Junqueira, Junqueiro5.

Os caules dos juncos são muito apropriados para entrançar e tecer e, no nosso país, têm sido utilizados em cestaria, assentos de cadeiras, coberturas para sombreamento, esteiras e “paredes” leves em ambientes agrícolas, hoje reconfigurados como elementos decorativos. O contexto local, directamente relacionado com a disponibilidade da matéria-prima e a tradição, determina os usos que são dados aos juncos.

Apesar do declínio generalizado do uso de juncos, durante o século XX, existem núcleos de continuidade e revitalização, nos quais estas plantas sustentam actividades tradicionais.

Em Forjães (Esposende), um centro interpretativo, inaugurado em 2022, dá a conhecer o mais emblemático ofício desta freguesia – o trabalho com junco-marítimo (Juncus maritimus Lam.), planta que cresce nos solos alagados por águas salobras e nos estuários de rios influenciados pelo regime das marés. Os juncos colhem-se quinzenalmente, durante a maré baixa e dependendo da fase da Lua, entre o Dia de São João e as Festas da Senhora da Agonia, ou seja, entre o final de Junho e meados de Agosto. Após serem colhidos, secam-se e branqueiam-se com enxofre; alguns tingem-se para criar o contraste de cores típico de algumas peças. São tecidos num tear, urdido com fios de juta (Corchorus spp.), formando as «peças» (o corpo principal da cesta) e outras que formarão os «pedaços» (os lados da cesta). Estas duas partes são cosidas com fio de algodão (Gossypium spp.), constituindo, assim, as típicas alcofas e cestas. A tradição indica que foi um ovarense quem trouxe o ofício de trabalhar o junco para esta região e a ensinou. Inicialmente, seria uma actividade masculina, mas as mulheres foram abandonando os teares de tecidos e passaram a tecer o junco. A medula de alguns juncos, especialmente os que nascem nas margens dos rios, é relativamente fácil de extrair e, no passado, utilizou-se como pavio de velas. O Junco de Forjães foi inscrito no Registo Nacional de Produções Artesanais Tradicionais Certificadas6.

Em Castanheira (Alcobaça), Porto de Mós e Foros do Paul (Coruche) também se tecem os juncos para seiras e cestas tradicionais, seguindo técnicas antigas, com as quais agora se criam objectos contemporâneos, que os centros urbanos nacionais e internacionais começam a redescobrir.

As croças, capotes feitos de juncos, são típicos das áreas rurais do Norte de Portugal e ainda se fazem em algumas regiões, como no Barroso (Montalegre e Boticas) e no Alto Tâmega (Ribeira de Pena). Estas peças eram tradicionalmente utilizadas por agricultores e os pastores, para se protegerem das intempéries do inverno que, nestas regiões, pode ser muito rigoroso. Os caules entrançam-se para formar uma corda, à qual se prendem feixes de juncos que, sobrepostos, constituem o padrão característico da croça. A produção actual é quase toda destinada a fins culturais sendo muito raro o seu uso em contexto agrícola7.

Onde persistem zonas húmidas funcionais, conhecimento tradicional e práticas sustentáveis, este património biocultural mantém-se vivo. Os juncos relembram-nos que a conservação não se faz apenas protegendo espécies e habitats, mas também reconhecendo e valorizando o conhecimento que, historicamente, ligou as comunidades humanas aos ecossistemas húmidos. Compreendê-los, estudá-los e divulgá-los é essencial para unir botânica, cultura material e conservação, num horizonte comum de sustentabilidade.

  

Bibliografia

1 powo.science.kew.org [28 Janeiro 2026].

2 Linné, C. (1753). Species Plantarum (vol.1). Impensis Laurentii Salvii, Holmiae (Estocolmo).

3  Gaffiot, F. (1934). Dictionnaire illustré latin-français. Librairie Hachette, Paris.

4 S. Talavera, M.J. Gallego, C. Romero Zarco & A. Herrero (eds.) (2010). Flora iberica. Plantas vasculares de la Península Ibérica e Islas Baleares Vol. XVII. Butomaceae Juncaceae. Real Jardín Botánico, CSIC, Madrid.

5 Machado, J.P. (2003). Dicionário Onomástico e Etimológico da Língua Portuguesa (vol. 2). Livros Horizonte, Lisboa.

6 Câmara Municipal de Esposende (2022). Junco de Forjães. Caderno de Especificações. Câmara Municipal de Esposende.

7 Araújo, D. (2012). A croça. As culturas do trabalho no Barroso. Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real.

   

Texto da autoria de Luís Mendonça de Carvalho.

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