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Figueira

Material

Nome comum da planta

Figueira [miolo de figueira]

Nome científico da planta

Ficus carica L.

Distribuição no território nacional

Cultivada e naturalizada em Portugal continental e insular

Figueira ©Jardim Botânico UTAD/Hans Hillewaert

A figueira é uma espécie cultivada desde a Antiguidade, intimamente associada à história agrícola e cultural das civilizações mediterrâneas, havendo autores que sugerem uma domesticação iniciada há cerca de 11.000 anos, no contexto das primeiras sociedades agrícolas.

O nome do género (Ficus) provém do latim clássico e era o nome atribuído à figueira e ao seu fruto, enquanto o epíteto específico (carica = “da Cária”) alude à Cária, região situada no Oeste da Ásia Menor, na qual existiam muitas figueiras, referidas por Plínio, o Velho, na obra História Natural (13.10 in ficorum autem Caricas).

As figueiras têm uma simbiose reprodutiva com as vespas (himenópteros) da espécie Blastophaga psenes (Linnaeus, 1758), que utilizam algumas flores femininas para efetuarem a oviposição.

   

A sua distribuição natural estende-se do Mediterrâneo oriental até à Ásia Central e ao Afeganistão, e a difusão para ocidente acompanhou as migrações humanas e as redes comerciais fenícias, gregas e romanas.

Em Portugal, a sua presença é muito antiga (arqueófito) e a sua dispersão deveu-se a aves e outros animais, permitindo que esta espécie se instalasse em muros, taludes, escarpas, margens de linhas de água, ruínas e terrenos abandonados, comportamento que revela uma elevada capacidade de adaptação. Adquiriu grande importância em regiões de Portugal Continental, como Mirandela, Torres Novas e, sobretudo, no Algarve, nas quais se produzem figos de elevada qualidade.

O grande produtor mundial de figos é a Turquia, e embora Portugal tenha uma forte tradição nesta área, a produção tem diminuído desde a década de 1960, devido a alterações na dieta e nos padrões de utilização das terras agrícolas.

    

Além do consumo em fresco ou secos, os figos são tradicionalmente utilizados na preparação de doces, compotas e aguardentes. A medicina popular também lhes atribui propriedades terapêuticas, recomendando-os contra inflamações da garganta e como laxante, enquanto o látex da planta pode ser aplicado no tratamento de algumas patologias dermatológicas.

Nos Açores, a figueira acompanha a história do povoamento do arquipélago desde os primeiros colonos. Introduzida, provavelmente, por habitantes provenientes de regiões continentais portuguesas, onde a espécie era comum, naturalizou-se rapidamente nestas ilhas, crescendo em ravinas, escarpas costeiras e terrenos de baixa altitude, inferiores a 500 m. Embora o principal aproveitamento desta espécie seja o das infrutescências (o figo é uma infrutescência – sícone – constituída por numerosos frutos), as figueiras possuem outras aplicações, materiais e simbólicas, das quais se destacam a utilização da madeira e dos ramos jovens em diversas apliacações artesanais, como na delicada arte açoriana do miolo de figueira.

A arte do miolo de figueira é uma das expressões artesanais mais singulares da cultura portuguesa, profundamente identitária do arquipélago. Criada a partir da medula branca dos ramos jovens, combina virtuosismo técnico e sensibilidade estética, reproduzindo flores, figuras humanas, embarcações e paisagens com extraordinária minúcia.

     

Origem da arte do miolo de figueira

A origem exata desta arte permanece incerta, embora a tradição a associe aos conventos femininos açorianos do século XVII.

As freiras utilizariam o miolo branco dos ramos jovens da figueira para criarem flores ornamentais e pequenas figuras destinadas sobretudo a presépios. Muitas artes delicadas e minuciosas desenvolvidas em Portugal nasceram em ambientes monásticos, onde o tempo, a disciplina manual e a dimensão devocional favoreceram trabalhos de enorme precisão. Após a secularização dos conventos, a técnica foi preservada e transmitida por artesãos laicos, e embora tenha existido em várias ilhas açorianas, foi sobretudo na ilha do Faial que esta tradição conseguiu sobreviver até aos nossos dias.

Na tradição iconográfica cristã, a figueira está, frequentemente, associada à Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal devido ao versículo 3.7 do Livro do Génesis [Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus, coseram folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas, como se fossem cinturas, à volta dos rins] e, assim, os figos são símbolos de tentação e pecado. Contudo, se representados junto a Jesus Cristo, ou nas suas mãos, simbolizam a Redenção, de acordo com uma interpretação do versículo 15.22 da 1.ª Carta aos Coríntios 175 [E, como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida].

  

O processo artesanal

A execução das peças em miolo de figueira exige um conhecimento técnico muito específico. A matéria-prima é recolhida apenas durante o período de dormência da figueira, entre novembro e fevereiro, quando os ramos jovens não possuem folhas, nem frutos. Fora desse período, a medula torna-se demasiado húmida e frágil para ser trabalhada.

Após o corte, os ramos são descascados para revelar o interior branco e macio, o miolo de figueira. Este material é deixado secar durante alguns dias antes de ser utilizado.

O miolo é fixado numa pequena estrutura de madeira denominada cortadeira, permitindo ao artesão obter finíssimas lâminas com o auxílio de facas ou lâminas afiadas. Outras ferramentas especializadas ajudam a modelar pétalas, folhas, figuras humanas ou elementos decorativos. Um pequeno instrumento chamado riscador permite gravar detalhes subtis, como nervuras florais.

As diferentes partes são posteriormente coladas – no passado, com goma-arábica, atualmente com colas líquidas –, formando composições de extraordinária delicadeza. Mesmo uma pequena flor pode exigir várias horas de trabalho, enquanto conjuntos complexos exigem centenas de horas.

A fragilidade do material contrasta com a precisão alcançada pelos artesãos. O resultado possui uma aparência quase etérea, semelhante ao marfim, ao osso esculpido ou à porcelana, embora muito mais leve.

    

Prestígio artístico e memória cultural

O reconhecimento internacional desta arte começou no século XIX, quando obras da artesã Emília Madruga Ferreira foram premiadas na Exposição de Paris de 1855.

Desde então, o miolo de figueira passou a ser visto não só como curiosidade regional, mas como expressão artística de elevado requinte técnico.

Entre os maiores nomes desta tradição destaca-se Euclides Silveira da Rosa (1907–1979), autor das extraordinárias composições hoje preservadas no Museu da Horta. As suas obras representam aldeias açorianas, monumentos, embarcações históricas, cenas marítimas, aviões e costumes populares, utilizando milhares de fragmentos de miolo de figueira.

Estas miniaturas demonstram algo importante: esta arte não é mero artesanato decorativo. Existe nela uma dimensão documental e memorialista. As peças preservam paisagens, técnicas tradicionais, embarcações desaparecidas e diversos aspetos da vida açoriana.

    

Uma tradição em risco

Atualmente, poucos artesãos dominam esta técnica. A extrema exigência do processo, a fragilidade das peças e a reduzida rentabilidade económica dificultam a continuidade da tradição.

O valor cultural desta arte foi oficialmente reconhecido pelo Governo Regional dos Açores através da Portaria n.º 89/1998, que certifica e protege esta expressão secular. Contudo, o reconhecimento legal do seu valor não garante a sobrevivência cultural. Muitas tradições desaparecem não por falta de valor cultural, mas por não encontrarem continuidade na transmissão geracional, sustentabilidade económica ou integração na vida contemporânea.

A arte do miolo de figueira constitui uma das manifestações poéticas do património artesanal português. Mais do que simples artesanato, estas obras revelam uma relação profunda entre natureza, memória e identidade cultural. Num tempo marcado pela produção massificada e pela velocidade, o miolo de figueira recorda o valor do tempo dedicado à criação artística, à precisão manual e à atenção ao detalhe.

   

Texto da autoria de Luís Mendonça de Carvalho.

    

    

Referências Bibliográficas

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