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Dragoeiro

Material

Nome comum da planta

Dragoeiro

Nome científico da planta

Dracaena draco (L.) L.

Distribuição no território nacional

Nativo da Macaronésia (Madeira e Açores), cultivado em Portugal Continental

Dragoeiro ©Flora On/Paulo Ventura Araújo

Entre as árvores nativas das ilhas portuguesas, poucas despertam tanto fascínio como o dragoeiro – uma relíquia da flora do Terciário, que sobrevive na Macaronésia e em Marrocos.

Os dragoeiros representam linhagens remanescentes de plantas que evoluíram em antigas florestas subtropicais, outrora existentes na bacia mediterrânica e no norte de África. A progressiva aridez do clima provocou a retração da área de distribuição dessas espécies e, agora, sobrevivem apenas populações relíquias, em refúgios climáticos favoráveis.

  

O seu hábito inconfundível, marcado por um caule muito robusto e por uma copa ampla, com um perfil umbeliforme, lembrando uma grande sombrinha, evoca um mundo pré-histórico.

Os dragoeiros apresentam adaptações morfológicas e fisiológicas que lhes permitiram adaptar-se a alterações ambientais, como pequenas raízes aéreas e rosetas foliares, pelas quais absorvem água.

    

A sua extraordinária longevidade, crescimento lento e resina vermelha, conhecida como «sangue-de-dragão», fizeram desta enigmática espécie um símbolo de identidade insular.

   

O dragoeiro apresenta uma taxonomia complexa, em consequência da sua distribuição descontínua pela Macaronésia e Marrocos.

Estudos morfológicos, biogeográficos e moleculares recentes demonstraram que as populações de dragoeiros existentes nestas áreas não são homogéneas, reconhecendo-se várias subespécies com distribuição geográfica bem delimitada.

    

A subespécie Dracaena draco (L.) L. subsp. draco corresponde às populações das Ilhas Canárias e da Madeira, constituindo o núcleo principal da distribuição desta espécie.

Na Madeira, sobrevive apenas um indivíduo considerado inequivocamente silvestre, ao qual se juntaram alguns exemplares provenientes de programas de reforço populacional.

A origem das 169 populações açorianas permanece incerta e alguns autores defendem que resultam de introduções humanas muito antigas. Contudo, algumas populações, como as que existem nas ilhas das Flores e São Jorge, reforçam a hipótese de que o dragoeiro é nativo do arquipélago açoriano. Nos Açores, o dragoeiro encontra condições climáticas distintas das existentes na Madeira porque a elevada humidade atmosférica e a influência dos ventos oceânicos favorecem o desenvolvimento de copas densas, vigorosas, baixas e ramificadas. Aqui, as plantas desenvolvem-se em escarpas voltadas para o mar, onde beneficiam da humidade transportada pelos nevoeiros e estão protegidas da competição com outras espécies.

    

No início do seu crescimento, o dragoeiro apresenta um tronco principal durante alguns anos, sem ramificação. Após a primeira floração, normalmente entre os dez e os quinze anos de idade, o ápice vegetativo subdivide-se em vários ramos. Cada nova fase de floração desencadeia uma nova divisão, dando origem a uma copa harmoniosa e bem estruturada. Nem todos os exemplares seguem este padrão de crescimento, mas esta é a regra geral do crescimento desta espécie, permitindo, assim, calcular, de forma aproximada, a idade de um determinado dragoeiro, com base no número de ramificações sucessivas.

Embora alguns exemplares sejam, na tradição popular, considerados milenares, é possível que tenham apenas algumas centenas de anos, o que, mesmo assim, os inclui entre as espécies arbóreas mais longevas da flora insular.

      

Em Marrocos, na região do Anti-Atlas, ocorre a subespécie Dracaena draco (L.) L. subsp. ajgal Benabid & Cuzin que, desde 2020, alguns autores consideram ser uma espécie autónoma: Dracaena ajgal (Benabid & Cuzin) Rivas Mart., Molero Mesa, Marfíl & G.Benítez. Em Cabo Verde encontra-se a subespécie Dracaena draco subsp. caboverdeana Marrero Rodr. & R.S.Almeida que, desde 2017, alguns autores consideram suficientemente distinta para justificar o seu reconhecimento como espécie, sob a designação de Dracaena caboverdeana (Marrero Rodr. & R.S.Almeida) Rivas Mart., Lousã, J.C.Costa & Maria C.Duarte.

Os dragoeiros da Macaronésia e Marrocos constituem, assim, um complexo evolutivo diversificado que revela uma história marcada por dispersões antigas, seguidas de isolamento prolongado.

    

A etimologia do género Dracaena Vand. ex L. deriva do grego drákaina [= dragão-fêmea, serpente monstruosa], enquanto o epíteto específico draco provém do latim e significa dragão. Esta ligação ao dragão alude a uma lenda antiga, que relaciona a resina obtida destas plantas com este animal mítico. Foi na obra Species Plantarum (1762) que Lineu descreveu esta espécie, atribuindo-lhe o nome Asparagus draco L. e na qual referiu o exemplar que Pehr Löfling (1729–1756) encontrara no Convento da Graça, em Lisboa, e ao qual atribuíra o nome Asparagus 170 draconis. Na 12.ª edição de Systema Naturae (1767), Lineu passou a incluir esta espécie no género Dracaena, sob a designação de Dracaena draco (L.) L., nome que se mantém válido.

Desde a Antiguidade clássica que se comercializa uma substância resinosa conhecida como «sangue-de-dragão», cuja cor intensa alimentou numerosas lendas e tradições. O nome popular deriva da aparência desta matéria obtida dos caules, quando a planta sofre lesões. Inicialmente transparente, logo oxida, tomando uma cor que evoca a do sangue. Do ponto de vista fisiológico, o sangue-de-dragão é uma resposta de defesa já que é libertado quando ocorre uma lesão mecânica, ataque biológico ou outro tipo de stress.

No período clássico, esta substância não foi obtida dos dragoeiros da Macaronésia, já que estes apenas foram conhecidos após os europeus terem iniciado a exploração das ilhas atlânticas, a partir do século XIV. A origem do sangue de dragão clássico localizava-se na ilha de Socotorá, actualmente parte do Iémen, onde existem as últimas florestas naturais de dragoeiros, que pertencem à espécie Dracaena cinnabari Balf.f., morfologicamente próxima da espécie que encontramos nos arquipélagos insulares portugueses.

    

Ao longo dos séculos, o sangue-de-dragão foi utilizado em diversas aplicações artesanais, artísticas e medicinais. Como corante natural, utilizou-se na preparação de vernizes, tintas e pigmentos para pintura. Alguns violeiros (luthiers), como Antonio Stradivari (c.1644-1737), incluíram a resina de dragoeiro na composição do verniz, com o qual terminavam o acabamento dos instrumentos de corda, aproveitando as propriedades corantes e protectoras da resina.

Na medicina tradicional, o sangue-de-dragão gozou de grande reputação, pois enquadrava-se nos princípios orientadores da Doutrina das Assinaturas, amplamente difundida na Europa dos séculos XVI e XVII. Segundo esta concepção pré-científica, a aparência das plantas revelava, por desígnio divino, as suas propriedades terapêuticas. Por ter uma cor que evocava a do sangue, a resina de dragoeiro era usada como cicatrizante, adstringente e hemostático, sendo aplicada no tratamento de feridas e hemorragias. Embora muitas destas utilizações pertençam agora ao domínio da medicina histórica e popular, o interesse científico pelas propriedades químicas da resina persiste.

     

Uma das mais notáveis colecções de dragoeiros existentes nos Açores encontra-se no parque do Museu do Vinho, na ilha do Pico. Este núcleo inclui exemplares centenários que constituem uma das maiores concentrações desta espécie em toda a Macaronésia. No passado, as folhas dos dragoeiros existentes na ilha do Pico foram utilizadas pelos tanoeiros para calafetar o vasilhame e pelos viticultores, na amarra de enxertos da vinha.

Actualmente, são aplicadas na produção de capachos, chapéus e objectos decorativos.

    

Apesar da sua importância histórica, ecológica e cultural, o dragoeiro encontra-se sujeito a diversas ameaças. As populações naturais diminuíram significativamente, em resultado da perda e fragmentação dos habitats, da acção humana e dos herbívoros introduzidos, da competição com espécies exóticas e das mudanças climáticas. A capacidade de renovação natural da espécie é reduzida. De acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o dragoeiro é uma espécie em perigo de extinção.

O valor simbólico do dragoeiro contribuiu, igualmente, para a sua importância cultural. Em várias ilhas da Macaronésia, a árvore tornou-se um elemento identitário da paisagem e do património local, figurando em obras literárias, representações artísticas e iniciativas de valorização ambiental. Já Gaspar Frutuoso a ele se referiu em Saudades da Terra, uma obra seminal sobre a história insular.

Alguns dragoeiros centenários são monumentos naturais e atraem visitantes de todo o mundo. A espécie beneficia de medidas de protecção, programas de conservação, reprodução em viveiro e recuperação de habitats, que procuram assegurar a sua sobrevivência. A preservação do dragoeiro representa não apenas a proteção de uma espécie botânica singular, mas também a salvaguarda de um importante legado cultural associado à história e à identidade das ilhas atlânticas.
      
Texto da autoria de Luís Mendonça de Carvalho.

     

     

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