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Bracejo

Material

Nome comum da planta

Bracejo, Baracejo, Garacejo

Nome científico da planta

Stipa gigantea Link

Distribuição no território nacional

Espécie com ampla distribuição, em especial nas Beiras, Ribatejo, Extremadura, Alentejo Litoral e Algarve.

©UTAD

O bracejo, também designado por baracejo ou garacejo, é o nome comum atribuído a uma espécie espontânea, amplamente distribuída em Portugal e que, para a ciência, é conhecida como Stipa gigantea Link. Este nome científico é aceite pelos autores da Flora Iberica (vol. 19: 98)1, obra de referência dedicada ao inventário e estudo da flora vascular da Península Ibérica e Ilhas Baleares (1986–2021). Contudo, outros autores defendem que a designação taxonómica correcta deverá ser Celtica gigantea (Link) F. M. Vázquez & Barkworth, propondo a sua inclusão no género Celtica F.M.Vázquez & Barkworth (2004) e não no género Stipa L. (1753)2.

O género Stipa foi estabelecido pelo botânico sueco Carl von Linné [Lineu] (1707-1778) na obra Species Plantarum (vol. 1: 78)3, publicada em dois volumes, em Maio de 1753; esta obra marca o início da botânica contemporânea. O nome stipa tem origem no latim e referia-se a materiais utilizados para cobertura ou enchimento. Tem afinidade etimológica com stuppa (‘estopa’), obtida do cânhamo ou do linho e empregue, entre outros usos, na calafetagem de embarcações. O naturalista romano Plínio, o Velho (23-79), refere, na sua monumental Naturalis Historia [História Natural] (vol. 19: 17)4, que este último material também era utilizado como combustível e pavio de lucernas.

O epíteto específico gigantea alude ao porte elevado que estas plantas podem atingir, chegando até aos 245 cm de altura. O nome de autor – Link – indica-nos que foi o botânico Johann Heinrich Friedrich Link (1767-1851) quem descreveu e validamente publicou as características morfológicas desta espécie (protólogo), na obra Journal für die Botanik 1799(2): 313–314 (1800)5.

O bracejo ocorre em comunidades herbáceas xerofíticas e pode desenvolver-se em condições ambientais muito diversas, desde prados perenes até arribas litorais, tolerando uma amplitude térmica que pode oscilar entre -15 °C e +30 °C. Prefere zonas de forte exposição solar e resiste tanto ao frio como à seca6.

Trata-se de uma espécie hemicriptófita (gemas de renovo à superfície do solo), herbácea e cespitosa, formando tufos densos de caules e com uma inflorescência terminal que pode atingir 48 cm de comprimento. A morfologia da inflorescência permite distingui-la de uma outra espécie filogeneticamente próxima: o esparto (Stipa tenacissima L.). Ao contrário desta, o bracejo apresenta uma panícula menos densa, com espiguetas (pequenas espigas) claramente pêndulas7.

As espécies do género Stipa pertencem à família das gramíneas (Poaceae), que inclui os cereais, plantas que acompanham os humanos desde o alvor das práticas agrícolas. As gramíneas, em conjunto com as leguminosas, constituem a base que permite a estabilidade alimentar das sociedades humanas.

Em Portugal, como em outras regiões onde o bracejo é utilizado como matéria-prima (Espanha e Marrocos), os seus caules são colhidos no início do Verão, processados e preservados para uso posterior. Destaca-se, em particular, o uso na cestaria (cestos, alcofas e canastras), mas também outros, como material de enchimento, coberturas temporárias, fabrico de vassouras, chapéus, peças de mobiliário simples (bancos) e alimento para o gado bovino. Esta diversidade de aplicações resulta das propriedades físicas dos caules, que aliam robustez e leveza. No caso da cestaria, o bracejo é suficientemente leve para facilitar o transporte dos cestos, mas também suporta cargas agrícolas consideráveis.

O Despacho n.º 5348/2025, de 9 de Maio, do Instituto do Emprego e da Formação Profissional, inscreveu o ‘Bracejo de Sortelha - Sabugal’ no Registo Nacional de Produções Artesanais Tradicionais Certificadas, reforçando o valor cultural destas peças e valorizando, também, a região onde as mesmas são criadas. Existem outras áreas do nosso país onde a arte de trabalhar o bracejo se mantém, como em Pombal (freguesia da Ilha). Contudo, nesta última região, recorre-se a técnicas distintas, baseadas na entrança dos caules, ao invés do que se faz em Sortelha, onde predomina o método que consiste na união dos caules em pequenos feixes, cosidos com fio-do-norte (linho), fio de algodão, ráfia, palha ou materiais equivalentes8.

A técnica da espiral cosida, também utilizada noutros materiais, como caules de centeio (Secale cereale L.) e ‘cascas’ de silvas (Rubus spp.) usados na manufactura de escrinhos (Trás-os-Montes), é considerada uma das mais antigas, na história da cestaria. Consiste em conduzir um feixe de caules, reunidos em forma de canudo (em Sortelha, designa-se pavio), a partir de um ponto central, correspondente ao centro da base da peça. Em torno deste núcleo, vai-se formando uma espiral contínua, fixada pela costura, que orienta o crescimento e a forma do objecto.

Em Sortelha, a produção de peças em bracejo terá começado no início do século XX, em resposta a necessidades domésticas quotidianas, conhecendo um incremento significativo a partir da década de 1960, quando esta aldeia começou a integrar novas rotas turísticas9.

À semelhança do que se observa em outras tradições artesanais, o uso do bracejo tem um papel significativo na relação ecológica estabelecida entre as populações das Beiras e os seus recursos naturais. Essa relação manifesta-se no conhecimento dos habitats desta espécie, na gestão empírica dos locais onde as plantas se desenvolvem, no conhecimento preciso do período de colheita adequado, assim como das correctas práticas de processamento pós-colheita. Trata-se de um conjunto de saberes técnicos e ecológicos, integrados num tradicional sistema de transmissão oral.

  

Texto da autoria de Luís Mendonça de Carvalho.

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