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Palitos de Lorvão

artes
©DGARTES/Vasco Célio-Stills/2023

Com íntima associação à indústria transformadora e importância expressiva na economia local, no processo tradicional de produção de palitos convergem e constituem fatores fundamentais, dois tipos de saberes tradicionais. Em primeiro lugar, o conhecimento de cariz etnobotânico, expressos no conhecimento dos cobertos e espécies vegetais endógenas, assim como nos procedimentos de seleção, abate e preparação das madeiras de salgueiro e choupo, incluindo o seu descasque e secagem, ao sol e no forno, destinadas à confeção de palitos. Em segundo lugar, os conhecimentos e as aptidões técnicas expressas no procedimento de laminação daquelas madeiras, com recurso a utensílios simples, em que a destreza do artesão, aprendida e desenvolvida em contexto familiar desde a infância, constitui o fator fundamental.

A manufatura de palitos consiste numa atividade transformadora, de cariz pré-industrial, que, em diversas freguesias do Município de Penacova (Figueira de Lorvão, Lorvão e Penacova), recorre a espécies provenientes dos cobertos vegetais endógenos, característicos das margens do Rio Mondego, em particular o salgueiro e o choupo que desde há muito se reveste de uma dimensão emblemática, a nível regional e mesmo nacional, quer dada a importância que este tipo de produção assume na atividade económica das respetivas comunidades locais, quer dada a profundidade histórica deste tipo de produção, com relevância económica atestada desde o século XVIII, mas com origens, associadas ao próprio Mosteiro de Lorvão. Não sabendo, ou não podendo, explicar o dispêndio de uma verba de 600.000 réis, as monjas administradoras do Mosteiro indicaram que aquela verba estava relacionada com a utilização de palitos, dado que tem sido interpretado para evidenciar a importância que a indústria de produção de palitos assumia já na economia local naquela época, pois as freiras encobriram com essa justificação outras despesas.

Segundo a tradição, a manufatura dos palitos teve a sua origem no Mosteiro de Lorvão estendendo-se depois às povoações vizinhas, algumas já nos concelhos de Vila Nova de Poiares e Coimbra, em virtude do êxodo de pessoas vindas de Lorvão, quer por casamento, quer por motivos económicos, ou outros. Para além da influência do Mosteiro na divulgação dos palitos, outro fator foi preponderante. Esta zona é propícia à existência de madeira de salgueiro-branco e choupo. Sendo uma região de fracos recursos agrícolas onde os homens viviam do trabalho da enxada, andando na lavoura alheia, a área de Lorvão propiciava o estabelecimento de uma indústria caseira como o fabrico dos palitos. Assim se preenchiam disponibilidades de tempo e se contribuía para o sustento diário, colaborando crianças, mulheres, velhos e mesmo homens adultos. Apesar dos lucros obtidos com a manufatura dos palitos e com a sua embalagem serem baixos, acabam por constituir um complemento importante para o orçamento familiar dos habitantes da região. Havendo a possibilidade de serem dedicados a esta ocupação períodos diários variáveis, permitindo assim harmonizá-los, sem grandes dificuldades com outras atividades de uma população com um ritmo irregular de trabalho ao longo do ano.

Em 1898 abriu em Lorvão uma agência para exportação dos palitos que abrangia países europeus como a Espanha e Inglaterra, os antigos territórios ultramarinos e as Américas, onde os palitos portugueses apareciam no Panamá, Brasil e México (“Indústria dos Palitos”, O Defensor do Povo, n.º 40, Coimbra, 4 de dezembro de 1892). Ao longo dos Sécs. XIX e XX, várias foram as formas de divulgação desta pequena indústria. Foram promovidas várias exposições nomeadamente as exposições distritais de 1869 e 1884, que tiveram lugar em Coimbra; as exposições nacionais, a Exposição da Indústria Portuguesa de Lisboa, em 1888 (nesta exposição foram premiados sete expositores de palitos, sendo três com medalha de cobre e quatro com menção honrosa) e a Exposição do Palácio de Cristal Portuense, em 1891; exposições internacionais, nomeadamente: Exposições de Paris em 1900 e 1910, Panamá em 1915, Argentina, Rio de Janeiro em 1922 (Exposição Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil) e Londres, os palitos foram premiados, não só pela habilidade e perfeição dos paliteiros ao demonstrar a sua arte “como pela graciosidade entre as povoações que representavam”).

©Arquivo Fotográfico Digital de Penacova

A manufatura dos palitos propriamente dita, isto é, a laminação da madeira, é usualmente realizada no espaço doméstico, por vezes os vizinhos reúnem-se à porta de casa, sempre que as condições atmosféricas o permitem, para a realização deste trabalho minucioso com recurso à luz natural, passando por diversas fases: seleção, abate e corte do salgueiro ou do choupo e preparação na serração; secagem e preparação da madeira; transformação do pau em palitos; contagem dos palitos; e embalagem.

Os utensílios de trabalho são os seguintes: banco, cesta ou condessa, coira, coiro, apara, foice sem bico ou podão, navalha ou faca inglesa, pedra de afiar e piteira.

Atualmente os palitos mais conhecidos são os palitos de pá e bico e de dois bicos e os palitos de flor e de pestana. Em Lorvão também já se fizeram: croques, palitos serrados, palitos de relógio e palitos gigantes.

©Arquivo Fotográfico Digital de Penacova

No concelho de Penacova a manufatura dos palitos assume um caráter emblemático da cultura de matriz tradicional local, que se exprime igualmente na importância que os dois ranchos folclóricos da freguesia de Lorvão (Grupo Etnográfico de Lorvão e Rancho Folclórico “As Paliteiras de Chelo”) dedicam, desde as últimas décadas, à encenação da manufatura de palitos por ocasião das suas exibições.

Atualmente o volume de negócios relacionado com a embalagem dos palitos, só na freguesia de Lorvão, ronda os 4 milhões de euros. No concelho de Penacova mais de 1 000 pessoas (com idade superior a 40 anos) ainda sabem fazer palitos, estes fazem-se em pequenas quantidades, pois são poucos os compradores e não é permitida a sua venda, por motivos higiénicos, nas grandes superfícies comerciais. A legislação portuguesa atual não permite a venda de palitos manufaturados nas superfícies comerciais. Contudo existem ainda alguns restaurantes do país que preferem este tipo de palitos para acompanhar algumas iguarias, nomeadamente as entradas e as francesinhas. Praticamente todo o mercado nacional é abastecido por palitos embalados em Lorvão. As máquinas das fábricas de Lorvão, já não produzem palitos. Embora permanecendo alguns resistentes paliteiros, a globalização ditou que a especialidade é o embalamento de palitos. Dado que fica mais barato importar a matéria-prima já pronta, vêm caixas de palitos da China, que são analisados em Lorvão, verificado o controlo de qualidade e se estiverem em conformidade, passam pelas mãos das funcionárias das várias fábricas, ou em casa de algumas mulheres de Lorvão que tentam aumentar o seu rendimento mensal e os revestem a papel, ou os colocam em caixas ou paliteiros. Lorvão que perdeu o monopólio do fabrico do palito foi chamado por Leite de Vasconcelos de “capital do palito”. 

©Arquivo Fotográfico Digital de Penacova

Os troncos são abatidos nos meses de dezembro e janeiro, serrados, rachados, limpos e descascados pelos madeireiros. Outrora a seleção da madeira para abate era feita pelos madeireiros. Hoje essa seleção é feita, muitas vezes, pelas pessoas que fazem os palitos. Depois são rachados com a ajuda de dois homens. Cada um segura o seu utensílio e apoia o machado na parte superior do tronco, dando-lhe uma pancada com uma maceta (utensílio de madeira usado pelos madeireiros, juntamente com um machado), que separa o tronco em duas metades. Seguidamente a madeira é descascada e limpa com uma foice. Depois de retirada a casca, tira-se o veio central e as partes nodosas. Posteriormente as “metades” da madeira são novamente rachadas e atiradas para o chão. No ato da compra do pau, o artesão escolhe-o e ata-o em “molhadas” (conjunto de paus ou varas, limpos, descascados e amarrados, com um arame), consoante a quantidade que prefere. Ao chegar a casa do artesão, a madeira é colocada a secar ao sol, durante os meses de março e abril, em linha reta, encostada a uma parede ou em “castelos” (também se diz encasar, isto é dispor os “paus” em “casas”, cruzá-los, dois a dois, paralelamente uns sobre os outros formando uma pilha quadrangular). Depois da secagem do pau pelo sol, para tirar a humidade, este acaba de secar no forno de cozer a broa. Depois de cozer a broa e aproveitando o forno que ainda está quente, colocam-se os pedaços de madeira nos fornos (individuais ou comunitários) para “desamaciar” o pau, onde recebe uma têmpera apropriada ao fim a que é destinado: rija ou branda, conforme é convertido no palito comum ou no lavrado. Geralmente a secagem da madeira para os palitos de flor processa-se apenas ao sol, por vezes, se apanha muito calor, é necessário voltar a humedecê-lo com um pouco de água quando se vai trabalhá-lo. Quando a madeira está completamente seca, racha-se com uma foice (instrumento cortante constituído por uma lâmina encurvada, que termina num gume serrado), até se conseguirem pequenos pedaços que podem ser laborados com a navalha. Estes pedaços são designados por “nacas”. O artesão continua a abrir a madeira, obtendo pedaços espalmados de cerca de dois centímetros de largura, que se subdividem longitudinalmente até perto da base. Cada uma das hastes dessas “rachas” designa-se por “coto” e, quanto maior for o seu número, maior será a quantidade de palitos que se poderão obter. Habitualmente são quatro ou cinco o número de “cotos” por “racha”. Esta fase do trabalho é feita pelos mais velhos, pois exige mais perícia. A rapariga paliteira normalmente só começa a rachar o pau depois de casar. O artesão não executa por si a totalidade do trabalho. Há pessoas experientes, nesta fase de rachar o pau, que o auxiliam. Em Lorvão, era frequente encontrar mulheres que andavam aos “meios-dias” (trabalhavam para cada pessoa meio-dia de cada vez) a rachar o pau, ganhando assim, mais algum dinheiro, ou comida. Para os palitos de flor a madeira é aberta com uma navalha, até se obterem paus que se considerem adequados para fazer palitos. Contudo o trabalho de abrir a madeira à navalha é diferente, para os palitos de flor que exigem paus reboludos e para os de pestana que exigem paus de forma mais achatada.

Partindo de pedaços de madeira, as “pegadas” ou os “cotos”, o artesão vai aguçando os paus até ficarem ligeiramente arredondados, num comprimento pouco superior ao dos palitos e aguça-se uma das extremidades. Depois separa-se, conjuntamente da “racha” ou “pegada”, cortando-se “em pá” (palitos de pá e bico), aguçados nas duas extremidades (palitos de dois bicos) ou cortados nas duas pontas (croques). Obtém-se assim, um primeiro grupo de palitos, logo armazenado no côncavo da mão com que se vai segurando a “racha” e repete-se, depois este modo de proceder sucessivamente, até esta acabar por ser toda transformada em palitos. No caso dos palitos de flor, a paliteira vai afeiçoando os paus, que vão adquirindo uma forma semelhante à dos futuros palitos. De cada um dos paus trabalhados só se obtém apenas um palito. O trabalho de acabamento do palito inicia-se pelo “luxar” e que consiste em passar, várias vezes, a face ou as costas da navalha pela madeira, até lhe conferir um certo brilho. Começa-se depois a fazer a “flor” ou a “pestana”, que são os efeitos decorativos. Para os palitos de flor levantam-se com a navalha, pequenas aparas de madeira que, enrolando sobre si mesmas, acabam por compor uma série variada de desenhos, esmerando a artesã em não repetir o mesmo motivo em cada quarteirão dos palitos que apresenta. Para delimitar a zona que vai decorar, a paliteira pode produzir na madeira pequenas marcas, com o auxílio de uma bitola. Nos palitos de pestana, as farripas são feitas, primeiro de um lado e, depois, do outro. Para “enflorear” e fazer “pestana” deve ser utilizada uma navalha bastante usada. Depois de feita a decoração, talha-se a cabeça do palito, que também é “luxada”, e depois cortada para separar o pau.

Acabados os palitos são contados e atados em “maços”. A contagem dos palitos é feita por grupos de quatro palitos: os “pares”. Um volume, ou maço de palitos de pá e bico contém 30 pares (30x4=120 palitos), enquanto os maços de primeira contém 50 pares (50x4=200 palitos).  Os maços são desfeitos e os palitos acondicionados em embalagens para venda ao público. A embalagem dos palitos merece também um lugar de destaque, pois os palitos são um artigo que deve ser devidamente apresentado. Tinham também como objetivo manter os palitos nas “condições mais higiénicas possíveis evitando as moléstias levadas ao organismo pelos palitos expostos ao pó e ao dedo de toda a gente”. Os palitos destinados ao consumo próprio, apenas são atados com um fio, designado por guita e depois colocados num paliteiro. Os palitos confecionados para venda são colocados em: “carteiras” (embalagem de palitos constituída por uma caixa de cartolina); cartuchos (embalagem contendo três ou sete pares e meio de palitos, embrulhados em papel de seda); e tubos (embalagem de cartão em forma de prisma, com um orifício num dos topos para extrair os palitos). Para os palitos de flor as paliteiras fazem embalagens de papel colorido, em forma de pequenos pacotes cónicos, em que é introduzida apenas a ponta dos palitos. Cada um desses maços contém um quarteirão de palitos, que costumam ser todos de desenho diferente. Depois formam-se conjuntos de quatro embalagens, colocando-se duas num sentido e duas no outro, de modo a constituir-se um cento de palitos. Quanto aos palitos de pestana, são embalados de modo semelhante aos anteriores, embora com uma disposição diferente no interior de cada pacote, a fim de não se deteriorarem. Cada quarteirão de palitos é repartido por dois pacotes, contendo um doze e o outro treze, e assim cada cento leva oito pacotinhos.

  

Texto de Paula Silva

Autora da documentação para o processo de classificação da manufatura dos palitos de Lorvão como PCI

Bibliografia

  • BORGES, Nelson Correia. (1992). A arte monástica em Lorvão, sombras e realidades, Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, pág. 38-39.
  • COLAÇO, Magalhães. (1913). “Palitos de Lorvão”, in Illustração Portugueza, 364, Lisboa, pág. 170-173.
  • GOUVEIA, Henrique Coutinho. (1981). Palitos de pá e bico (exposição itinerante), Coimbra, Museu e Laboratório Antropológico da Universidade de Coimbra.
  • Relatório dos serviços da 2.ª Circunscrição Industrial nos anos de 1916 a 1920, 1923, in Boletim do trabalho industrial, n.º 119., pág. 17-19.
  • SECO, António Henriques. (1853). Memória histórico – chorografica dos diversos concelhos do districto de Coimbra, Coimbra: Imprensa da Universidade, pág. 110-114
  • SILVA, Paula Cristina Ferreira (2000). Os palitos na freguesia de Lorvão : da manufactura à maquinofactura. Penacova: Município de Penacova.

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